6# MEDICINA E BEM-ESTAR 22.4.15

UMA EPIDEMIA PREVISVEL
O crescimento do nmero de casos de dengue expe a fragilidade das polticas de preveno  doena no Pas
Cilene Pereira (cilene@istoe.com.br)

Na quinta-feira 16, a prefeitura de So Paulo declarou uma tardia guerra  dengue. O prefeito Fernando Haddad anunciou que pediu auxlio ao Exrcito para ajudar a conter a proliferao do Aedes Aegytpi, o mosquito transmissor do vrus causador da doena. J so mais de oito mil os casos da enfermidade na cidade neste ano. Em 2015, no mesmo perodo, foram cerca de trs mil.

EMERGNCIA - Em So Paulo foram montadas tendas de atendimento nos bairros mais atingidos

A medida anunciada por Haddad diz muito sobre como o Brasil e seus governos  federal, estaduais e municipais  vm tratando a dengue desde a primeira epidemia, registrada em 1986 no Rio de Janeiro e em algumas capitais nordestinas: colocar tranca em uma porta arrombada.  inadmissvel que, em 2015, as maiores cidades do Pas ainda sofram com tendas improvisadas, hospitais sem condies de atendimento e carncia de agentes de sade. Tudo isso s ocorre porque h descaso do poder pblico.

Em So Paulo, a tentativa de conter a doena implicar receber cinquenta soldados, que sero destacados para acompanhar 2,5 mil agentes de sade nas visitas s regies onde a populao resiste  entrada dos funcionrios em suas residncias. Antes, a administrao municipal tambm espalhou pelos bairros mais atingidos tendas para o atendimento dos doentes porque hospitais e unidades de sade no esto dando conta da assistncia a tantas pessoas. E,  claro, houve dificuldades de atendimento tambm nesses locais improvisados.

Aes emergenciais esto sendo tomadas em todo o estado de So Paulo, o segundo com mais casos - 585 por 100 mil habitantes , podem ser vistas em Gois, que registra at agora 702 casos por 100 mil habitantes, e em vrios outros pontos do pas castigados pelo vrus. Em So Paulo, por exemplo, o governo estadual mobilizou trinta mdicos militares para integrar uma fora-tarefa contra a doena. Neste ano, a fora de propagao do vrus impressiona. De janeiro a maro, o Ministrio da Sade registrou 460,5 mil casos, totalizando um aumento de 240% em relao ao mesmo perodo do ano passado. E no se sabe se o pior ainda est por vir, em especial na regio Sudeste, onde as chuvas demoraram mais a chegar e podem se estender por mais algumas semanas.

O grande problema  que a situao vista hoje foi possvel de ser vislumbrada, tomando como base o triste histrico brasileiro de epidemias da doena. Portanto, algo que deveria ter sido alvo de um esforo de preveno importante. Os diferentes nveis de governo dizem que fizeram sua parte. O Ministrio da Sade, por exemplo, informa que enviou a So Paulo em 2014 mais de mil quilos de larvicida e 14 mil litros de inseticida para serem usados contra as larvas do Aedes Aegypti. E que no ano passado realizou o Levantamento Rpido do ndice de Infestao do Aedes (LIRA) em 1844 cidades. O ndice revela os locais de maior concentrao do mosquito e serve  ou pelo menos deveria servir  para nortear aes preventivas feitas pelos municpios dois ou trs meses antes do perodo esperado para o surgimento de casos (janeiro a maio). Em So Paulo, a Secretaria Estadual da Sade alega que desde o ano passado vinha alertando as prefeituras sobre o risco de aumento no nmero de casos em 2015 e que, entre outras medidas, destacou 500 agentes da Superintendncia de Controle de Endemias para ajudar nos locais mais atingidos.

Uma poltica contnua de preveno, porm, deveria incluir o ataque a causas estruturais que esto por trs da repetio das epidemias por aqui. Entre elas, a falta de saneamento e o processo de urbanizao descontrolada, explica a pesquisadora Denise Valle, do Instituto Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro. Alm disso,  preciso investir na conscientizao da populao sobre a importncia dos cuidados dentro de casa. Do ponto de vista mais imediato, o Ministrio da Sade coordena algumas iniciativas, como um estudo para validar sinais de alarme de que os casos podem aumentar em determinado local. As epidemias normalmente pegam os gestores de surpresa, mas elas no ocorrem abruptamente, explica Giovanini Coelho, coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue. A partir de informaes como a temperatura e a notificao de casos em uma rea,  possvel acionar os planos de contingncia contra a doena naquele lugar, diz.

